A plataformização da educação na pandemia

A plataformização da educação tem sido cada vez mais acolhida pelo mercado, instituições de ensino e alunos com acesso à internet. Comprometendo-se, especialmente, a flexibilizar o formato de aulas presenciais envoltas em horários determinados e exposições instantâneas, o modelo da educação à distância no ambiente online proporciona certo ajuste das demandas da vida à vida.

No cenário da COVID-19, o EAD assume novos significados e (im)possibilidades junto à educação nacional e seus atores. O formato online de ensino passa a ser adotado como um recurso de prosseguimento do “normal” por várias instituições pedagógicas em todo o país — o cumprimento do calendário escolar, o ritmo do ensino-aprendizado, a preparação para o ENEM foram algumas das motivações que alicerçaram o EAD como medida de segurança.

Deixando de servir apenas como possibilidade, e assumindo uma roupagem de compromisso emergencial à educação para alguns, o EAD subitamente causou desconforto. De engajamento a nível nacional, o formato passa a ser percebido como um ato descompromissado com as realidades do Brasil. O ensino à distância anuncia uma metáfora sobre a (constante) distância que o ensino está de muitos brasileiros.

Não por acaso. Aproximadamente 27% dos domicílios no Brasil não possuem acesso à internet (IBGE, 2018); cerca de 4,8 milhões de crianças e adolescentes não têm acesso à internet em casa (TIC EDUCAÇÃO, 2019); e quase 40% dos estudantes da rede pública de ensino não possui computadores ou tablets (idem). Também, somente 14% das escolas públicas contam com uma plataforma digital de ensino (idem).

Em um contexto social que apresenta tais dados, a oportunidade de acessar plataformas online de ensino passa a simbolizar a existência do sujeito social no mapa da educação. No mapa do cuidado, e da importância. Um sujeito incluído no e pelo Estado.

O EAD passa, assim, a ser um demarcador explícito das desigualdades e da exclusão social. Torna-se uma expressão de distinção na pandemia. Distinção entre aqueles que podem receber educação por meio do ambiente digital, e aqueles que não.

Os esforços de fazer parte de um lugar, sem ter o caminho para este, são regularmente apontados por parte da mídia. Crianças esperam seus pais voltarem de seus empregos para terem acesso a celulares, e assim, assistirem às aulas. Estudantes criam redes de compartilhamento de dispositivos móveis e internet para que colegas e amigos tenham acesso ao conhecimento. Utilizam a internet das comunidades em que vivem. Outros ainda, organizam encontros presenciais na casa dos colegas que possuem acesso aos aprendizados.

Contudo, somado a esses obstáculos, há também a percepção de que pouco do que é ensinado online é absorvido pelos estudantes. Muitos pretendem “repetir de ano”, pois sentem que não aprenderam o suficiente. Por vezes, há pouca familiaridade dos professores com o ensino à distância, ou mesmo com as tecnologias envolvidas neste processo. O EAD foi lançado sem apresentar metodologia que contribuísse para a preparação e recepção do conhecimento.

Neste cenário, a constante construção da inclusão por quem está excluído pode ser interpretada como resistência às características neoliberais que envolvem tal formato emergencial de ensino. O distanciamento social, nestes casos, é menos um distanciamento em prol da saúde do que um distanciamento total do Estado e de seus direitos fundamentais.

Referências

IBGE, 2018. PNAD Contínua TIC 2018. Disponível em: <https://bit.ly/3212lBY> Acesso em: 06, set, 2020

TIC EDUCAÇÃO, 2019. TIC Kids Online Brasil 2019 — Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) Disponível em: <https://cetic.br/pt/pesquisa/kids-online/indicadores/> Acesso em: 06, set, 2020.]

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Social anthropologist researching digital piracy and streaming technology. E-mail: andressansoilo@outlook.com

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Andressa Nunes Soilo

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